Automação e padronização de dados de saúde esbarram em falta de estrutura e regulação

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Automação e padronização de dados de saúde esbarram em falta de estrutura e regulação

Medidas tornariam mais eficiente a prestação do serviço no país. Tema foi debatido em evento do Instituto de Relações Governamentais – IRELGOV

Processos de automação, de padronização dos dados e de comunicação entre os diferentes sistemas usados no Brasil podem tornar mais eficiente a prestação do serviço de saúde ao brasileiro. Para isso, no entanto, ainda há barreiras a serem superadas, que vão da ausência ou insuficiência de estrutura e servidores capacitados em muitos municípios à falta de regulação.

Esses foram alguns dos pontos destacados por profissionais que atuam no setor durante o painel “Inovação e eficiência na gestão da Saúde”, moderado pela jornalista Lígia Formenti, editora e analista de saúde do JOTA. O painel fez parte da programação do Encontro Irelgov 2023, evento que foi organizado pelo Instituto de Relações Governamentais (Irelgov) e que reúne profissionais do lobby.

Um dos pontos abordados no painel foi a interoperabilidade, ou seja, a padronização e integração dos dados dos diferentes sistemas de saúde no Brasil. Os participantes disseram que sua implantação depende de vários fatores, podendo levar um mês ou até dez anos para ser feita.

Lígia Pimentel, diretora de Relações Governamentais na América Latina da Siemens Healthineers, destacou que a empresa atuou na integração dos sistemas de saúde das dez regiões que compõem a Áustria, processo que levou três anos para ser concluído. No Brasil, o trabalho da empresa se dá numa escala menor. Ela está em negociação com quatro cidades. Cada uma delas está tentando integrar os sistemas de suas diferentes unidades de saúde.

Segundo Lígia Pimentel, há algumas barreiras a serem superadas no Brasil: “Acho que são alguns fatores. Olhando para o sistema público de saúde, falta estrutura de pessoas, recursos, e até de conectividade de internet. Essa seria uma das barreiras. E educação. É preciso educar. Quantos programas o Ministério da Saúde lança e os municípios têm dificuldade de implementar? No sistema privado, já é um pouco ‘eu estou guardando o mercado, o paciente é meu, e eu não quero dividir o dado’. Temos barreiras distintas. Acho que deve ter um movimento forte de prioridade de governo para que realmente isso aconteça.” Ela também disse que, na visão da empresa, o paciente é o dono dos seus dados.

Ricardo Melo, da GS1, responsável pela geração de códigos de barras no Brasil e em outros países, disse que há hoje entre 400 mil e 500 mil produtos de saúde cadastrados com esse sistema, entre equipamentos médicos e remédios. Ele destacou que a ferramenta ajuda na automação dos processos, mas não faz mágica. Felipe Dias Carvalho, diretor regional de Brasília na Associação Brasileira da Indústria de Tecnologia para Saúde (ABIMED), lembrou que o código de barras, além do uso comercial, pode ajudar a aumentar a segurança dos pacientes.

“Na saúde, principalmente no nosso segmento, em que trabalhamos com implantes, tem a rastreabilidade. Se tiver um problema, precisamos saber quem está usando, em quem foi implantado, para fazer uma espécie de recall, para acudir o paciente. Hoje alguns materiais cirúrgicos podem ser codificados para que faça a gestão dos produtos no ambiente hospital para evitar extravios, para saber quem esterilizou o equipamento. Se o paciente tiver alguma infecção, dá para saber os responsáveis”, afirmou Dias Carvalho a respeito do código de barras.

Tanto Melo como Dias Carvalho destacaram que ainda falta uma regulamentação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a respeito de alguns aspectos do uso de softwares para a análise de dados de saúde.

Diálogo entre governo e sociedade

Em outra apresentação durante o evento, Paulo Henrique Rodrigues Pereira, secretário-executivo do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável — o chamado “Conselhão”, que assessora o presidente Luiz Inácio Lula da Silva —, disse que é necessário haver um esforço conjunto do poder público, da sociedade e das empresas para que a democracia brasileira se fortaleça.

Ele avaliou que, embora nunca se tenha votado tanto no país e a democracia tenha resistido às turbulências políticas recentes, há um ressentimento de parte da sociedade brasileira com o regime político atual. Isso porque o Brasil vem tendo desde os anos 80 um baixo crescimento econômico, fazendo com que muitos vivam hoje pior do que viviam seus pais no passado.

“Uma parte das demandas sociais, especialmente inclusão de gênero, étnico-racial e as questões de sustentabilidade, uma parte desse ambiente está vindo da sociedade para o governo. Governos que não entenderem a sua incapacidade, a sua insuficiência, e não pedirem ajuda à sociedade para construir suas pautas de governo vão falhar inevitavelmente. Palácios de portas fechadas vão falhar”, disse Pereira.

Ele também afirmou que o Conselhão está criando cinco comissões temáticas, que serão órgãos permanentes para cuidar de diferentes assuntos, além de vários grupos de trabalho. A primeira comissão temática, a ser instalada na segunda-feira da próxima semana (3/7), vai cuidar de assuntos econômicos.

Assédio contra profissionais de RelGov

Beatriz Gagliardo, presidente do Mulheres RelGov, disse que foi feita uma pesquisa em que 80% das respondentes afirmaram ter enfrentado situações de assédio, “dos mais sutis aos mais diretos”. “Em quantas reuniões a gente foi a menina do café? Quantas de nós ouvimos piadas desnecessárias, e poucos homens se levantaram para dizer que tinha uma coisa errada?”, questionou.

Ela também disse que está sendo elaborado um manual de boas práticas, como forma de fazer um trabalho educativo, voltado também para as empresas, associações, consultorias e os colegas homens.

Já Suelma Rosa, diretora de Reputação e Assuntos Corporativos América Latina na Unilever, citou algumas práticas de assédio, como colegas em início de carreira que são chamadas para serem acompanhante de parlamentares.

Raiane Paulo, secretária-geral no Coletivo Pretas e Pretos em Relgov, disse que há exigências que muitas vezes funcionam como barreira para a contratação de negros, como por exemplo o inglês fluente. Ela questionou se um funcionário em início de careira precisa realmente de fluência no idioma, ou se a empresa não poderia contratar essa pessoa negra e permitir que ela aprimore o inglês depois.

Desafios no uso da tecnologia

Ignacio García Zoppi, cofundador e CEO da Tree Intelligence, mostrou os resultados de uma pesquisa segundo a qual o principal desafio para o setor de relações governamentais nos próximos cinco anos é o uso de tecnologias, tema citado por 64,18% dos respondentes.

Apesar disso, o levantamento também mostrou que um de cada três profissionais faz pouco ou nenhum uso de tecnologias específicas.

Ainda de acordo com a pesquisa, o principal uso da tecnologia no lobby, citado por 70,15%, é no monitoramento legislativo. Outro ponto destacado é que 89% acreditam que a inteligência artificial vai impactar radicalmente ou moderadamente o dia a dia de seu trabalho nos próximos cinco anos.

ANDRÉ DE SOUZA – Repórter freelancer – JOTA

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